Desespero em silêncio - Bullying

16-12-2011 16:12

Se a epidemia de gripe mereceu meios, a violência que a escola assinala - seja a que se dá em meio escolar, seja a que ela detecta - devia exigir uma provedoria da escola.

Escrito por Eduardo Sá Sábado, 22 Outubro 2011 - Revista Pais & Filhos

Suicidou-se recentemente uma criança de 12 anos, em Mirandela, que estaria a ser vítima de bullying (tendo tido, em Dezembro de 2008, um internamento hospitalar). No desespero de mais um episódio de violência de que foi vítima, terá saído da escola (que não teria um vigilante à entrada) e depois de se despir atirou-se ao rio Tua, não tendo, desde aí, sido encontrada.

Em primeiro lugar, e independentemente do perfil psicológico duma criança, a violência – física ou psicológica – de que todos os dias seja vítima na escola não pode ser tolerada. E o seu suicídio, como desenlace relacionado com ela, é absolutamente insuportável. A escola serve para educar e, só depois, para instruir. Serve para abrir as crianças para o conhecimento, conjugando a diversidade com a pluralidade. E serve para acarinhar, como para ligar a audácia com a justiça. Uma escola que é conivente, por omissão que seja, com a violência – dos pais, dos professores, dos funcionários ou dos alunos – seja a quem for que ela se dirija, educa para a intolerância e para o obscurantismo.

Em segundo lugar, se bem que se confunda, regra geral, agressividade e violência, é bom que uma e outra se distingam. A agressividade faz bem à saúde. É uma reacção proporcional ao medo. Serve como ansiolítico diante dele. E vem acompanhada da capacidade de reparação da dor, sempre que o sofrimento que ela promove em alguém se torna claro e inquina quem, na sua génese, via num vómito de ira um alívio retemperador. Já a violência resulta em actos compulsivos que promovem a dor e o sofrimento em alguém, sem culpabilidade e sem reparação, que servem de expiação ao sofrimento, insustentável, de quem a vive. Isto é: quem – pelo tom com que fala, pela intolerância com que exige, pelo desdém com que se arroga ou pelos actos de sofrimento que promove – magoa continuadamente, não o faz sem que seja, continuadamente, vítima de dor. Por mais que uma compreensão do que leva a violentar seja imprescindível, não é razoável que daí resulte uma recomendação de condescendência para quem o faz.

Em terceiro lugar, a violência continuada não é um fenómeno recente, por mais que hoje mereça mais atenção e mais mediatismo. Aliás, a escola do antigo regime, que premiava cada erro num ditado com uma reguada, e que tolerava atitudes de autoritarismo de muitos professores e de pais, incentivava com maus exemplos a violência. Uma escola amiga da violência tolerava melhor o bullying, por mais que parecesse indiferente em relação a ele. Por mais que as consequências mais visíveis de experiências torturantes fossem o insucesso, o absentismo e o abandono escolar.

Em quarto lugar, uma escola não pode colocar-se à margem do bullying que nela decorra, como se fosse um parceiro descomprometido em relação a ele. Reconheço que nem sempre as escolas dispõem de verbas que lhes permitam reunir as condições para que os espaços públicos dos alunos tenham os funcionários que seria recomendável que tivessem. E nem sempre se considera que os professores sejam indispensáveis nessas funções. No entanto, ao delegarmos, por algumas horas dum dia, a nossa responsabilidade parental numa escola, estamos a concordar, tacitamente, que ela reúne competências e condições para proteger os nossos fi lhos, ao mesmo tempo que os educa e os instrui. Se, por omissão ou por negligência, não o faz, é razoável que lhe sejam imputadas responsabilidades pelos danos que nela se tenham promovido. Que serão tanto mais signifi cativas se essa violência continuada tiver merecido, por parte dos pais, e em tempo oportuno, as chamadas de atenção, claras e incisivas, que tem de merecer.

Em quinto lugar, um acto de desespero diante da vitimização perante o bullying não surge sem um sofrimento avassalador, vivido em silêncio. Um sofrimento sob coacção, que torna cada dia de escola numa experiência de terror e de tortura diante da indiferença de todos. Aliás, é urgente que os pais sinalizem as mudanças súbitas de humor, o isolamento compulsivo contra o que é regra numa criança ou a ira impulsiva sem motivos familiares que o justifi quem. Em princípio, serão indícios de exposição dos seus fi lhos a experiências de vitimização diante da violência. E que separem a animosidade acidental entre crianças e adolescentes, que será didáctico que eles resolvam entre si, do bullying, que merece uma intervenção incisiva desde o início: sinalizando-o com urgência e protegendo quaisquer atitudes de violência a que os seus fi lhos estejam a ser expostos. Responsabilizando a escola e os pais de quem violenta. À margem de circuitos internos de televisão, cuja mais-valia na prevenção do bullying, será irrisória. E da Escola Segura, da Polícia, que esquece que quem violenta é, invariavelmente, intimidante e cobarde.

Em sexto lugar, não é razoável que os alunos que violentem sejam, como chegou a ser sugerido, privados de apoio social. Porque não serão só (ou sobretudo) as crianças com carências sócio-económicas que são protagonistas do bullying. E porque muitas escolas privadas, embora o registem, tentam iludi-lo ou abafá-lo como se esse fosse um fenómeno estranho a crianças ou a grupos de meios sócio-económicos favorecidos. Mais importante do que considerar os agentes de bullying crianças perigosas e penalizar os seus pais na carteira – como foi sugerido – elas têm de ser consideradas crianças em perigo. E, para todos os efeitos, deve ponderar-se se os pais reunirão as condições indispensáveis para o exercício da parentalidade, independentemente do estatuto social e das condições económicas que manifestem.

Em sétimo lugar, as crianças que violentam também são crianças. E se aquelas que elas vitimam se tornam, pelos seus actos de violência, vítimas, quem vitima também o é. Porque os actos de violência que protagonizaram não surgem do nada, por mais que surjam diluídos num grupo, nem nunca terão merecido os cuidados que deviam requerer.

E porque a transformação destas crianças em réus branqueia as omissões e as negligências dos seus pais e das suas escolas, e estigmatiza-as, para sempre. O que no caso do suicídio do menino de Mirandela tornará a vida escolar e a vida social destas crianças insuportável.

Finalmente, o suicído duma criança, em função dum sofrimento insuportável, não pode fi car remetido ao silêncio. Tem de merecer uma adequada avaliação judicial. E devia exigir, por parte do Ministério da Educação, medidas de acompanhamento sérias. Seja através dum número verde de aconselhamento para pais, para crianças, para funcionários ou para professores. Seja numa articulação mais metódica e efi caz com as comissões de protecção de crianças e de jovens. Se a epidemia de gripe mereceu meios que se tornaram úteis para todos, a violência que a escola assinala – seja aquela que se dá em meio escolar (sejam quais forem os protagonistas), seja a que ela detecta – devia exigir uma Provedoria da Escola, para que, defi nitivamente, um Estado de Direito seja amigo da Educação e vice-versa.

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